domingo, 21 de dezembro de 2014

A Religião nos Limites da Simples Razão - Parte 1

ARELIGIÃ O
NOSLIMITE S
D ASIMPLE SRAZÃ O

ediçõe s7 0

ADVERTÊNCIA
AReligiãonoslimite sdasimple srazão(1793)éoescrito
capitaldeKantsobreareligião,emboranãosejaoúnico.De
facto,Deus,aliberdadeeaimortalidade,«objectivossupremos
danossaexistência»(KrVB,395),sempreocuparamumlugar
privilegiadoentre osproblemasfulcraisdasuafilosofia.
AdoutrinakantianadeDeuspassouporváriosestádiosde
elaboração:desenvolveu-se,noperíodopré-crítico,no âmbitode
umconfrontocomLeibnizeWolffJáentãoKantfazuma
críticaàteologiaracional-oque nãodeixadeterum nexocom
aevoluçãoulteriordoseupensamentoecomaconfirmaçãoda
suaatitudecontraapossibilidadedametafísica.Emseguida,na
CríticadaRazãopura,oproblemateológicoédiscutidono
interiordaimpugnaçãodametafísicatradicionaleracionalista.
Asuasoluçãonegativaapartirdosprincípiosespeculativosda
razãoera,paraKant,acondiçãosin equanonparaumoutro
caminhodoconhecimentodeDeus,achamadaprovamoral;
importava«eliminarosaberparadarlugaràfé»(KrVB,
XXX).OpostuladodeDeusconecta-secomopreceito«deve-mosfomentarobemsupremo(sejaelequalfor)»eaargumen-taçãoaseurespeito insere-senoquadrodeumavisãoteleológica
darealidadetotal.Ateleologiamoral(asubordinaçãoda
naturezaàrealizaçãodosummumbonumjconduzassima
umateologiamoral,plenamenteelaboradaemAReligiãonos
limite sdasimple srazão.Seoderradeirosentidodarealidade
sótemrespostanocampoético,énaturalqyeseavanceparaa
9
religião,masconcebidacomooconhecimentoeocumprimento
detodososdeverescomomandamentosdivinos.
AreduçãodareligiãoàmorallevaKantaexpordemodo
simbólicoosprincípiosdareligiãocristã,aproporadistinção
entreféhistórica(féeclesial,queédesvalorizada)eaféda
razão(féreligiosa),aencararasverdadesreveladascomosim-plesauxiliaresdareligiãoenquantosentimentomoral.Trata-se
deumareligiãosemculto,puro«serviçodecorações»,emque
tudoo que éhistóricoesobrenaturalsecircunscreveàmedida do
homemesesubordinaàsuarealizaçãomoral.Adimensão
eclesiológicasofreidênticarestriçãomoral,jáqueaIgrejase
convertenum«seréticocomum»,aliásemligaçãocoma
singularinterpretaçãokantianadacristologia,emqueoJesus
históricoésubstituídopelaideiada humanidadecomosermoral.
Estatendênciaparadissolverareligiãonamoralidade,quenão
subtraiKantàcensuradeumcertopneumatismoanti-insti-tucionalean-histórico,foiprosseguidanoOpuspostumum,
emboranemsemprecomtodaaconsistêncialógica.
***
Apresentetraduçãofoifeitaapartirdaediçãodotexto
kantianoporWilhelmWeischedel(Wiesbaden,InselVerlag
1956;Darmstadt,WissenschaftlicheBuchgesellschaft1968),
masseguindoquasesemprealeituradaEdiçãodaAcademia,
noscasosdedivergênciaedevariantes.Levou-seacabocomo
fimdeprepararecelebrarosegundocentenáriodestegrande
escritodeKant.Tentou-senelaatodoocustoafidelidadeao
espírito,àletraeaoestilodeKant.
Nofimdovolume,propõe-seumabibliografiaselectasobrea
filosofiakantianadareligiãoeumpequenoglossárioqueinclui
ascorrespondênciasentreostermosalemãeseosportugueses.
Nestaversão,nãoseindicamnemaspáginasdaediçãoorigi-nal,nemosacrescentosdasegundaedição,quernotextoquer
nasnotas.
ArturMorão
1 0
PRÓLOGOÀPRIMEIRAEDIÇÃO
AMoral,enquantofundadanoconceitodohomemcomo
umse rlivr eque,justamenteporisso,s evinculaas imesmo
pelarazãoalei sincondicionadas,nãoprecisanemdaidei ade
outrose racimadohomemparaconhecerose udever,nemde
outromóbildiferentedaprópriale iparaoobservar.,Pel o
menoséculpasuas eneles eencontraumatalnecessidadea
quepornadamaiss epodeentãoprestarauxílio;porqueoque
nãoprocededelemesmoedasualiberdadenãofaculta
compensaçãoalgumaparaadeficiênciadasuamoralidade.-Porconseguinte,aMoral,emproldes iprópria(tantoobjecti-vamente,notocanteaoquerer,comosubjectivamente,noque
dizrespeitoaopoder),denenhummodoprecisadareligião,
masbasta-seas iprópriae mvirtudedarazãopuraprática.-Comefeito,vistoqueassuaslei sobrigampelameraformada
legalidadeuniversaldasmáximasquehão-deassumir-sede
acordocomela-comocondiçãosuprema(tambémesta
incondicionada)detodososfins ,aMoralnãonecessitaem
geraldenenhumoutrofundamentomaterialdedeterminação
dolivr earbítrio
1
,istoé,denenhumfim ,nemparareconhece r
1
Aquelesaquemofundamentodedeterminaçãosomenteforma l(da
legalidade )emgeralnoconceitododevernãosatisfa zcomotalfundament o
admitem,noentanto,queestenãopodeencontrar-senoamorasimesmo,o
qualsereg epeloprópriobem-estarjRestam,pois,entãoapenasdois
fundamentosdedeterminação;um,queéracional,aprópriaperfeição,e
1 1
oquesej adever,nemaindaparaimpeliraqueel es elev ea
cabo;maspodeeatédeve,quandos etratadedever,abstrair
detodososfins.Assim,porexemplo,parasabers edevo(ou
tambémposso)serveraznomeutestemunhoperanteo
tribunal,ouse rlea lnareclamaçãodeumbemalheioamim
confiado,não énecessáriaabuscadeumfimqueeu,por-ventura,naminhadeclaração,pudessedecidirdeantemãovir
paramimaconseguir,poisnãointeressas eédeumoude
outrotipo;pelocontrário,quem,aoser-lhepedidalegitima -menteasuadeclaração,achaaindanecessáriobuscarumfim
qualqueréjánissoumindigno.
MasemboraaMoralnãoprecise,emproldes iprópria,de
nenhumarepresentaçãodefimquetivess edeprecedera
determinaçãodavontade,podese rquemesmoassimtenha
umareferênci anecessáriaaumtalfim,asaber,nãocomoao
fundamento,mascomoàsnecessáriasconsequênciasdas
máximasquesãoadoptadase mconformidadecomasleis .-Poisse mqualquerrelaçãodefimnãopodeterlugarno
homemnenhumadeterminaçãodavontade,jáquetaldeter-minaçãonãopodedar-sese malgumefeito,cuj arepresenta-çãote mdes epoderadmitir,s enãocomofundamentode
determinaçãodoarbítrioecomofimprévionopropósito,
decertocomoconsequênciadadeterminaçãodoarbítriopela
le ie mordemaumfim(finisinconsequentiamveniens);se m
este,umarbítrioquenãoacrescentenopensamentoàacção
intentadaalgumobjectodeterminadoobjectivaousubjecti-vamente(objectoqueel ete moudeveriater),sabeporventura
como,masnãoparaondetemdeagir,nãopodebastar-seas i
outro,queéempírico,afelicidadealheia.-Orasepelaprimeiranão
entendemjáaperfeiçãomoral,quesópodese ruma(asaber,umavontade
queobedeceincondicionalment eàlei) ,casoemqueexplicariamemcirculo,
deveriamreferir-s eàperfeiçãonaturaldohomem,enquantoelaésusceptível
deumaelevação,edaqualmuitopodehaver(comodexteridadenasartese
nasciências,gosto,agilidadedocorpoequejandos).Masistoébomsempre
demodocondicionado,ouseja ,apenassobacondiçãodequeose uusonão
estejae mconflitocomale imoral(aúnicaqueincondicionalment eordena);
porconseguinte,estaperfeição,postacomofim ,nãopodese rprincipiodos
conceitosdedever.Omesmoseaplicaigualment eaofi mdirigidoà
felicidad edeoutroshomens.Comefeito,umaacçãodeveprimeiro
ponderar-seems imesmasegundoale imoral,antesdes edirigirà
felicidad edeoutros.Fomentarestafelicidad eé,pois,deversódemodo
condicionadoenãopodeservirdeprincípiosupremodemáximasmorais.
1 2
mesmo.PeloquenãoénecessárioàMoral,e mordemaorecto
agir,fi malgum,masbasta-lheale iquecontémacondição
formaldousodaliberdadee mgeral.DaMoral,porém,
promanaumfim;poisnãopodese rindiferent eàrazãodeque
modopoderáocorrerarespostaàquestão«queresultarádeste
nossorectoagir»,eparaque-nasuposiçãodequetalnão
estivessedetodoe mnossopoder-poderíamosdirigircomo
paraumfim onossofaze redeixardemaneiraacomel epelo
menosconcordar.Éapenasumaidei adeumobjectoque
contémems iacondiçãoformaldetodososfins,comoos
devemoster(odever),eaomesmotempotodoocondi-cionadocomel econcordantedetodososfinsquetemos(a
felicidad eadequadaàobservânciadodever),ous,eja ,aidei a
deumbemsupremonomundo,paracuj apossibilidade
devemossuporumsersuperior,moral,santíssimoe
omnipotente,oúnicoquepodeunirosdoiselementosdesse
bemsupremo;masestaideia(consideradapraticamente)não
évazia,porquealiviaanossanaturalnecessidadedepensar
umfi multimoqualquerquepossase rjustificadopelarazão
paratodoonossofaze redeixartomadonose utodo,
necessidadequeseria,aliás,umobstáculoparaadecisão
moral.Mas,oqueaquiéoprincipal,ta lidei aderivadamoral
enãoconstituiose ufundamento;éumfi mcuj aautoproposta
pressupõejáprincípiosmorais.Nãopode,pois,se rindiferent e
àmoralqueelaform eounãoparas ioconceitodeumfim
últimodetodasascoisas(concordarase urespeitonão
aumentaonumerodosseu sdeveres,masproporciona-lhes,
noentanto,umparticularpontodereferênci adauniãode
todososfins) ;sóassims epodeproporcionarrealidade
objectivapráticaàcombinaçãodafinalidadepelaUberdade
comafinalidadedanatureza,combinaçãodequenão
podemosprescindir.Supondeumhomemqueveneraale i
moraleaquemocorre(cois aquedificilmenteconsegueiludir)
pensarquemundoele,guiadopelarazãoprática,criarias e
estivesseemse upoder,edecertodemaneiraqueelepróprios e
situassenessemundocomomembro;nãosóelegeria
precisamentetalcomoimplicaaideiamoraldobem
supremo,s elhefoss esimplesmenteconfiadaaeleição,mas
tambémquereriaqueummundoemgeralexistisse,poisale i
moralquerques erealiz epormeiodenósomaiselevadobem
possível;[ eassimquereria]embora,segundoessaideia,s evej a
e mperigodeperdermuitoemfelicidad eparaasuapessoa,
1 3
porqueépossívelqueel etalve znãopossaajustar-seà
exigênci adafelicidade ,exigênciaquearazãopõecomo
condição;porconseguinte,el esentir-se-iaobrigadopelarazão
areconheceraomesmotempocomoseuestejuízo,
pronunciadodemodototalmenteimparcial,comos efora
porumestranho;ohomemmostraassimanecessidade,nele
moralmenteoperada,depensaraindaemrelaçãocomosseu s
deveresumfi múltimocomoresultadoseu.
Amoralconduz,pois,inevitavelment eàreligião,pelaqual
s eestende
2
,foradohomem,àideiadeumlegislado rmoral
poderoso,emcuj avontadeéfi múltimo(dacriaçãodo
mundo)oqueaomesmotempopodeêdevese rofi múltimo
dohomem.
2
S eaproposição«HáumDeus»,porconseguinte,«Háumbem
supremonomundo»tive r(com oproposiçãodefé )deprovirsomenteda
moral,éumaproposiçãosintéticaapriorique,emboras eaceiteapenasna
referênci aprática,vaialémdoconceitododeverqueamoralcontém( eque
nãopressupõenenhumamatériadoarbítrio,massomentelei sformaissuas)
e,portanto,nãopodedesenvolver-seapartirdamoral.Mascomoépossível
semelhanteproposiçãoapriori?Aconsonânciacomasimple sidei adeum
legislado rmoraldetodososhomensé,decerto,idêntic aaoconceitomoral
dedeveremgeral,eassimaproposiçãoqueordenatalconsonânciaseria
analítica.Masaaceitaçãodaexistênciadeumobjectodizmaisdoqueasua
merapossibilidade.Achaveparaasoluçãodesteproblema,tantoquantoa
julgodiscernir,sóapossoaquiindicar,se madesenvolver.
Fimésempr eoobjectodeumainclinação,i.e.,deumapetiteimediato
paraapossedeumacoisapormeiodasuaacção;assimcomoalei(que
ordenapraticamente)éumobjectodorespeito.Umfimobjectivo(i.e.,oque
devemoster)éaquelequenosédadocomotalpelasimple srazão.Ofimque
contémacondiçãoiniludíve le,aomesmotempo,suficient edetodosos
outroséofimúltimo.Afelicidad eprópriaéofimúltimosubjectiv odeseres
racionaisdomundo(fi mquecadaumdelestememvirtudedasuanatureza
dependentedeobjectossensíveis ,edoqualseriaabsurdodizer:quesedeve
ter),etodasasproposiçõespráticas,quetê mcomofundamentoestefim
últimosãosintéticas,masaomesmotempoempíricas.Masquetodos
devamfaze rparas idosupremobempossívelnomundoofimúltimo-eis
umaproposiçãopráticasintéticaa-priorie,decerto,umaproposição
objectivo-práticadadapormeiodapurarazão,porqueéumaproposição
quevaimaisalémdoconceitodosdeveresnomundoeacrescentauma
consequênciasua(umefeito)quenãoestácontidonaslei smoraise,
portanto,nãopodedesenvolver-seanaliticamenteapartirdelas.Defacto,
estaslei sordenamabsolutamente,sej aqualfo rose uresultado,maisainda,
obrigamatéadeleabstrairtotalmente,quandos etratadeumaacção
particular;e,pori$so ,faze mdodeveroobjectodomaiorrespeito,se mnos
apresentareproporumfi m( efimúltimo),queteriaporventurade
constituirarecomendaçãodelaseomóbilparacumprironossodever.
1 4
***
S eaMoral,nasantidadedasualei,reconheceumobjecto
domaiorrespeito,então,aoníveldareligião,nacausa
supremaquecumpreessasleis,propõeumobjectode
adoração,eaparecenasuamajestade.Mastudo,atéomais
sublime,s edegradanasmãosdoshomens,quandoestes
empregamparausoseuaideiadaquele.Oquesó
verdadeiramentes epodevenerarnamedidae mqueélivr e
orespeitoparacomel eéobrigadoasubmeter-seaformasàs
quaissós epodeproporcionarprestígiomediantelei s
coercivas,eoquepors imesmos eexpõeàcríticapública
detodoohomemte mdesujeitar-seaumacríticaquepossui
força,ouseja,aumacensura.
Todososhomenspoderiamcomistoterbastante,s e(comodeviam)s e
ativessemunicamenteàprescriçãodarazãopuranalei.Quenecessidade
tê mdesaberoresultadodose ufaze redeixarmoral,queocursodomundo
suscitará?Paraele sésuficient equefaça mose udever;mesmoquecoma
vidaterrenatudoacabasseenesta,porventura,jamaiscoincidissem
felicidad eedignidade.Oraumadaslimitaçõe sinevitávei sdohomemeda
suafaculdad eracionalprática(talve zigualment edetodososoutrossere sdo
mundo)ébuscare mtodasasacçõesose uresultadoparanesteencontrar
algaquelh epudesseservi rdefi medemonstrartambémapurezadose u
propósito,fi mqueé,se mdúvida,oúltimonaexecução(nexueffectivo),
masoprimeironarepresentaçãoenopropósito(nexufinali).Orabem,
nestefim ,emboralh esej apropostopelasimple srazão,ohomembuscaalgo
quepossaamar;porisso,alei ,quesóinspirareverência,emboranão
reconheçaaquelecomonecessidade,estende-seemvistadeleaoacolhimento
dofimúltimomoraldarazãoentreosseusfundamentosdedeterminação,
ouseja ,aproposição«fa zdosumobempossívelnomundooteufim
último»éumaproposiçãosintéticaapriori,queéintroduzidapelaprópria
le imoralepelaqual,noentanto,arazãopráticas eestendeparaládesta
última;talépossívelemvirtudedeale isereferi ràpropriedadenaturaldo
homemdeterdepensarparatodasasacções,alémdalei ,aindaumfi m
(propriedadedohomemquefa zdeleumobjectodaexperiência),e(comoas
proposiçõesteoréticase,aomesmotempo,sintéticasapriori)ésópossível
poreleconteroprincípioaprioridoconhecimentodosfundamentosde
determinaçãodeumlivr earbítrionaexperiênciae mgeral,enquantoesta,
queapresentaosefeitosdamoralidadenosseu sfins ,subministraao
conceitodamoralidade,comocausalidadenomundo,realidadeobjectiva,
emborasomenteprática.-Orabem,seamaisestritaobservânciadaslei s
moraissedevepensarcomocausadaproduçãodobemsupremo(com ofi m
),então,vistoqueacapacidadehumananãochegaparatornarefectiv ano
mundoafelicidad eemconsonânciacomadignidadedese rfeliz ,háque
aceitarumse rmoralomnipotentecomosoberanodomundo,sobcuj a
providênciaistoacontece,i.e.,amoralconduzinevitavelment eàreligião.
1 5
Noentanto,vistoqueomandamento-obedeceà
autoridade!-tambémémoral,easuaobservância,tal
comoadetodososdeveres,s epodereferi ràreligião,fic abem
aumtratadoqueestádedicadoaoconceitodeterminado
destaúltimafornece relepróprioumexemplodesemelhante
obediência,aqual,porém,nãodeveserdemonstradasópela
atençãoàle ideumaúnicaordenançadoEstado,e
permanecercegoemrelaçãoatodasasoutras,massópelo
respeitoconjuntoportodaselasreunidas.Orabem,oteólogo
quepronunciaumjuízosobrelivrosoupodeestaremtal
lugarcomoalguémquevelasimplesmentepelasalvaçãodas
almas,ouaindacomoquemdeveaomesmotempoocupar-se
dasalvaçãodasciências;oprimeirojuizsócomoeclesiástico,
osegundosimultaneamentecomoerudito.Aoúltimo,como
membrodeumainstituiçãopúblicaàqual(sobonomede
Universidade)estãoconfiadastodasasciênciasparaose u
cultivoepreservaçãocontrapreconceitos,incumbe-lhe
restringiraspretensõesdoprimeiroàcondiçãodequeasua
censuranãocausequalquerperturbaçãonocampodas
ciências;es eambossãoteólogosbíblicos,acensurasuperior
caberáentãoaoultimocomomembrouniversitáriodaquela
Faculdadequefo iencarregadadetratardestateologia;pois,
notocanteaoprimeiroassunto(asalvaçãodasalmas),ambos
têmigua lmissão;mas,quantoaosegundo(asalvaçãodas
ciências),oteólogocomosábiouniversitáriote maindade
desempenharumafunçã oespecial.S es eabandonaestaregra,
entãoir-se-á ,porfim ,desembocarnecessariamentenoponto
emquej ánoutrotempos eesteve(porexemplo,naépocade
Galileu),asaber:queoteólogobíblico,parahumilharo
orgulhodasciênciases epouparaoesforçodelas,permita
as imesmoincursõesnaAstronomiaounoutrasciências,por
exemplo,ahistóriaantigadaterra,e-comoaqueles
povosquenãoencontrarame ms imesmoscapacidadeou
seriedadesuficient eparas edefendercontraataquesperigosos
transformamemdesertotudooqueosrodeia-esteja
autorizadoaembargartodososintentosdoentendimento
humano.
Mas,nocampodasciências,contrapõe-seàteologia
bíblicaumateologiafilosófica,queéobemconfiadoaoutra
Faculdade.Esta,contantoquepermaneçaapenasdentrodos
limite sil amerarazãoeutilizeparaconfirmaçãoeelucidação
dassuastese sahistória,aslínguas,oslivro sdetodosos
1 6
povos,inclusiv eaBíblia,massóparasi,se mintroduzirtais
proposiçõesnateologiabíblicaese mpretenderalterarosseu s
ensinamentospúblicos,paraoqueoeclesiásticodetémo
privilégio,deveterplenaliberdadeparas eestenderatéonde
chegueasuaciência;eembora,quandos econfirmouqueo
primeiroultrapassouefectivamenteassuasfronteirases e
intrometeunateologiabíblica,nãopossaconstestar-seao
teólogo(consideradosimplesmentecomoeclesiástico)o
direitoàcensura,contudo,enquantoaintromissãoestá
aindae mdúvidae,porconseguinte,surgeaquestãodes e
aquelatev elugarpormeiodeumescritoououtraexposição
públicadofilósofo ,cabeacensurasuperiorsomenteao
teólogobíblicocomomembrodasuaFaculdade,poisesteestá
encarregadodecuidartambémdosegundointeresseda
comunidade,asaber,oflorescimentodasciências,eestáno
se upostotãovalidamentecomooprimeiro.
Edecertocorresponde,nestecaso,acensuraprimeiraà
Faculdadeteológica,nãoàfilosófica;poissóaquelate m
privilégionotocanteacertasdoutrinas,aopassoqueesta
exerc ecomassuasumtráficoabertoelivre ;porisso,só
aquelas epodequeixarporterhavidoumaviolaçãodose u
direitoexclusivo.Masumadúvidaapropósitodaintromis-sãoéfáci ldeevitar,nãoobstanteaproximidadedasduas
doutrinasnasuatotalidadeeotemordeultrapassaros
limite sporpartedateologiafilosófica,s es econsiderar
apenasquesemelhantedesordemnãoacontecee mvirtudede
ofilósofoirbuscaralgoàteologiabíblicaparaoutilizar
segundooseupropósito(poisaúltimanãonegaráqueela
própriacontémmuitoe mcomumcomasdoutrinasdamera
razãoe,alémdisso,muitoselementospertencentesàhistória
ouaoconhecimentodaslínguaseconvenientesparaasua
censura),aindanocasodeutilizaroqueaelavaibuscar
numaacepçãoconformeàsimple srazão,mastalveznão
aprazívelàteologiabíblica;adesordemsótemlugarquando
eleintroduzalgonestateologiaepretendeassimdirigi-lapara
outrosfinsdiversosdosquelhepermiteasuaorganização.-Nãopode,pois,dizer-se,porexemplo,queoprofessorde
Direitonatural,aoirbuscaraocódigodosRomanos,paraa
suadoutrinafilosóficadodireito,muitasexpressõese
fórmulasclássicas,lev eacabonesteumaintromissão,
inclusiv es e-comomuitasveze sacontece-nãos eserv e
delasexactamentenomesmosentidoemqueteriadeas
1 7
tomarsegundoosintérpretesdoDireitoRomano,contanto
quenãopretendaqueosgenuínosjuristasouatéostribunais
asdevamassimtambémutilizar.Poiss etalnãofoss edasua
competência,poder-se-iatambém,inversamente,culparos
teólogosbíblicosouosjuristasestatutáriosdecometer
inumerávei sintromissõesnosdomíniosdafilosofia ,pois
unseoutros,vistoquenãopodemprescindirdarazãoe-ondes etratadaciência-dafilosofia ,aeladevemir
muitíssimasveze spediralgodeempréstimo,s ebemque
apenase mproveitoseu.Masse,nocasodoteólogobíblico,
s eatendesseanãoternadaaver-quantopossível-coma
razãonascoisasdareligião,facilment es epodepreverdeque
ladoestariaaperda;comefeito,umareligiãoque,se m
hesitações,declaraaguerraàrazãonãos eaguentará,
durantemuitotempo,contraela.-Inclusivearrisco-mea
propors enãoseriabom,apósocumprimentodainstrução
académicanateologiabíblica,acrescentarsemprepara
conclusão,comonecessárioparaocompletoequipamento
docandidato,umcursoespecialsobreapuradoutrina
filosóficadareligião(queutilizatudo,inclusiv eaBíblia),
segundoumfi ocondutorcomo,porexemplo,estelivro(ou
tambémoutro,s es econseguirdispordeoutromelhorda
mesmaíndole).-Poisasciênciasavançamsómediantea
separação,namedidae mquecadaqualconstituiprimeiro
pors iumtodo,esóentãos eempreendecomelasatentativa
deasconsideraremunião.Oteólogobíblicopodeassimestar
deacordocomofilósof ooucrerqueodeverefutar;se,
contudo,oescutar.Comefeito,sódestemodopodeeleestar
deantemãoarmadocontratodasasdificuldadesqueo
filósof olhevieraapresentar.Masocultá-las,inclusiv e
boicotá-lascomoímpias,éumrecursomiserávelquenão
convence;misturarosdoiscampose,porpartedoteólogo
bíblico,lançar-lhessóocasionalmenteumolharfurtivoéuma
faltadesolidez,comaqualninguém,emúltimaanálise,sabe
bememquesituaçãos eencontranotocanteàdoutrina
religiosanasuatotalidade.
Dosquatrotratadosseguintes-nosquais,paratornar
manifestaarelaçãodareligiãocomanaturezahumana,
sujeit aemparteadisposiçõesboaseemparteadisposições
más,representoarelaçãodoprincípiobomedomaucomo
umarelaçãodeduascausasoperantespors isubsistenteseque
influe mnohomem-oprimeirofo ij áinseridonaRevista
1 8
MensaldeBerlim(Abril1792) ;masnãopodiaficardelado
porcausadaexactaconexãodasmatériasdesteescritoque
contémnostrêstratados,agoraacrescentados,opleno
desenvolvimentodoprimeiro.

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