quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O conflito entre Liberdade e Natureza em Kant: o papel da subjetividade através do interesse na contemplação estética como imagem palpável da nossa liberdade moral

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA MESTRADO
ANTONIO DJALMA BRAGA JUNIOR
O conflito entre Liberdade e Natureza em Kant: o papel da
subjetividade através do interesse na contemplação estética como
imagem palpável da nossa liberdade moral
Projeto de pesquisa apresentado ao
Departamento de Filosofia, do Setor
Ciências Humanas, Letras e Artes, da
Universidade Federal do Paraná, para a
seleção do Mestrado.
Orientador: Vinicius B. de Figueiredo ou
Marco Antonio Valentim.
CURITIBA
2010
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PROJETO DE PESQUISA – MESTRADO UFPR
TÍTULO:O conflito entre Liberdade e Natureza em Kant: o papel da subjetividade
através do interesse na contemplação estética como  imagem palpável da nossa
liberdade moral.
IDENTIFICAÇÃO/DELIMITAÇÃO DO TEMA-PROBLEMA
Kant diz que a metafísica tradicional jamais pode decidir se há ou não
liberdade. Essa indecisão tem um efeito nefasto de  contestar a moralidade: se não
há liberdade, como responsabilizar as pessoas pelosseus atos? Pode se perceber
nisto que a questão da liberdade é uma questão natural da humanidade. Deste
modo, a partir da compreensão de que a liberdade está na esfera daquilo que se
denomina  coisa em sie a natureza naquilo que se chama  fenômeno, Kant vê que
essa questão da liberdade pode ser resolvida. Sem realizar esta distinção, não
poder-se-ia legitimar nada que fosse livre realmente e não poder-se-ia afirmar haver
liberdade sem prescindirmos do principio de causalidade. Qual foi a solução kantiana
para este conflito entre liberdade e natureza? E ainda, qual é o papel da
subjetividade na constituição desta solução?
Para responder a este intuito, tomar-se-á como basea terceira crítica de Kant
– a Crítica do Juízo– muito embora, será impossível contextualizar o conflito entre
liberdade e natureza sem destacar alguns pontos queestão presentes em outras
obras de Kant.
OBJETIVOS
GERAL
Analisar a solução kantiana para o conflito entre liberdade e natureza e o papel da
subjetividade na experiência estética como imagem palpável da nossa liberdade
moral.
ESPECÍFICOS
a) Contextualizar o conflito entre liberdade e natureza em Kant.
b) Compreender a solução kantiana do conflito entreliberdade e natureza
através da arte.
c) Analisar o papel da subjetividade na experiênciaestética como imagem
palpável da nossa liberdade moral.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
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O conflito entre liberdade e natureza trabalhado por Kant na  Crítica da razão
Pura, consiste em uma visão inovadora que abala os alicerces da metafísica
tradicional ocidental. Para esta, existia Deus, alma e mundo. Ora, Kant afirmara que
com essa estrutura, a metafísica não havia saído dolugar, ao contrário, a partir disso
só havia sido criado ilusões e, consequentemente, essa metafísica fracassara. Ele
escreve isso no prefácio à segunda edição da sua obra  Crítica da Razão Pura
quando afirma que:
(...) no que respeita ao acordo dos seus adeptos, relativamente às
suas afirmações, encontra-se a metafísica ainda tãolonge de o
alcançar, que mais parece um terreiro de luta, propriamente
destinado a exercitar forças e onde nenhum lutador  pode jamais
assenhorear-se de qualquer posição, por mais insignificante, nem
fundar sobre as suas vitórias conquista duradoura.  (KANT, 2001, B
XV)
Kant propõe uma forma de conhecer que, como consequência, abala os
alicerces da metafísica tradicional. Esta nova forma consiste em criar um caminho
seguro da ciência para a metafísica promovendo uma  espécie de revolução, tal
como fez Copérnico, admitindo que os objetos deveriam ser guiados pelo nosso
conhecimento, pressupondo, assim, um conhecimento apriori, onde as coisas são
reguladas mediante nossa capacidade cognitiva. Kantescreve que “se a intuição
tivesse de se guiar pela natureza dos objetos, não  vejo como deles se poderia
conhecer algo a priori; se, pelo contrário, o objeto (enquanto objeto dos sentidos) se
guiar pela natureza da nossa faculdade de intuição,posso perfeitamente representar
essa possibilidade” (KANT, 2001, B XVIII). Neste sentido, o nosso entendimento extrai
de si as leis da natureza e também passa a ser legislador destas leis. Esta idéia
abala a metafísica tradicional, muito embora, ele não chega a abandonar a estrutura
Deus, alma e mundo
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. Gérard Lebrun se questiona no inicio do capítulo  II da
primeira parte de sua obra  Kant e o Fim da Metafísicasobre o porquê desta
metafísica nunca ser constituída como uma ciência ediz que isto se deve ao fato de
que “a lentidão do espírito e o encanto da sofística muito cedo prevaleceram sobre o
exercício da razão” (LEBRUN, 2002, p. 59).
Ao se perguntar pela questão da liberdade e natureza, ver-se-á que esta
problemática encontrará solo fértil dentro dos apontamentos que Kant faz em sua
Crítica da razão pura, quando distingue os  fenômenosdas  coisas em si
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O fato de a Metafísica ser mantida para Kant implica a idéia de que arte e moralidade se relacionam.
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(compreendendo fenômeno como aquilo que nos é dado  sensivelmente, e sendo
dado na sensibilidade, pode ser pensado por conceitos). A partir disso, o filósofo
alemão afirma que não se pode presumir o que é um objeto qualquer sem as
faculdades da sensibilidade e do entendimento, não  porque não existam coisas em
si mesmas, mas sim porque a coisa em si é incognoscível. O nosso conhecimento,
portanto, está restrito aos fenômenos.
Dentro desta perspectiva, Kant diz que a metafísicatradicional jamais pode
decidir se há ou não liberdade. Essa indecisão tem um efeito nefasto de contestar a
moralidade: se não há liberdade, como responsabilizar as pessoas pelos seus atos?
Pode-se perceber nisto que a questão da liberdade éuma questão natural da
humanidade. Deste modo, estando a liberdade na esfera daquilo que se denomina
coisa em sie a natureza naquilo que se chama fenômeno, Kant vê que essa questão
da liberdade pode ser resolvida e procura trabalharisto em sua  Crítica do Juízo.
Mas será que esta solução apresentada na Crítica doJuízo não fere a radical
separação que a Crítica da Razão Puraprocura manter entre esses domínios a fim
de que tanto o conhecimento da natureza quanto a moralidade possam ser
justificados? Como a faculdade do juízo pode ser mediadora sem que se anule a
diferença entre os domínios da vontade e do conhecimento? Qual é, enfim, a
necessidade de suplantar o abismo entre liberdade enatureza? O fato é que sem
realizar esta distinção, não poderíamos legitimar nada que fosse livre realmente e
não poderíamos afirmar haver liberdade sem prescindirmos do principio de
causalidade.
Kant acredita haver uma antinomia da razão. Alguns  defendem a existência
da liberdade: a tese afirma a liberdade da alma semo apoio da natureza.
A causalidade segundo leis da natureza não é a única da qual
possam ser derivados os fenômenos do mundo em conjunto. Para
explicá-los é necessário admitir ainda uma causalidade mediante
liberdade. (KANT, 1974, p. 294)
Já a antítese nega a liberdade da alma, estando, esta, submetida às leis da
natureza: “não há liberdade alguma, mas tudo no mundo acontece meramente
segundo leis da natureza” (KANT, 1974, p. 294). Todavia, se consideramos a
mesma liberdade da alma como coisa em si, ela não écognoscível, porém, podemos
pensá-la; não podemos determiná-la por conceitos, mas podemos considerá-la como
algo que não é dado na sensibilidade, na experiência, como não condicionada pelas
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mesmas propriedades a qual as outras coisas se dão  a conhecerem. Em outras
palavras, não haverá contradição se partirmos da idéia de que o pensamento da
coisa em sié irredutível ao conhecimento teórico, científico;não tem um valor de
verdade ou falsidade. Portanto, assumir a dupla significação da alma humana, como
coisa em si e como fenômeno, é uma tentativa de dissolver a contradição entre
liberdade e natureza. Por conseguinte, é possível afirmar que para Kant, as nossas
sensações morais ocorrem num mundo inteligível, no  pensar, já as nossas ações
naturais, ocorrem num mundo sensível. Diante disso,pode-se perguntar: como é
possível o ingresso neste mundo inteligível? Como podemos estipular uma ponte
para estes dois domínios? E ainda: o que é que se pode "construir" sobre esta
ponte, que é o juízo? Será que não há uma diferençaou talvez mesmo uma
divergência de propósito e orientação entre firmar  o abismo entre liberdade e
natureza e procurar suplantá-lo mediante a ponte dojuízo? Se sim, qual seria essa
diferença? Sem ter a certeza destas reais possibilidades, cabe ressaltar que Guido
Antonio de Almeida nos aponta um caminho para a solução deste problema em seu
artigo intitulado  Liberdade e Moralidade em Kant(1997, p. 199) afirmando que o
ingresso neste mundo inteligível acontece pela porta da espontaneidade do juízo.
Ora, isto é o mesmo que perceber a realidade de quetemos de um lado, em
nós, um sujeito reduzido à coisa, e por outro lado,nos vemos como um puro ente
racional. Mas como se pode conciliar este puro enteracional e o ente natural?
Como, enfim, podemos conciliar liberdade e natureza? Ora, esse é o problema geral
que Kant procura resolver em sua obra  Critica do Juízo, ou  Crítica da faculdade
de julgar, através da análise sobre as questões em relação àarte. Será possível
afirmar, a partir desta obra, que a conciliação entre liberdade e natureza se dá pela
arte? Será a arte a ponte entre a coisa em si e o fenômeno? Será que a arte pode
naturalizar a liberdade? E, afinal, o que é a arte?Segundo Kant, a obra de arte é um
produto humano capaz de despertar em nós o Belo. Noparágrafo 43 da  Crítica do
Juízo(1974, p. 337), Kant estabelece uma divisão da arte, apresentando-a num
primeiro momento como algo que se distingue da natureza, e ainda que, somente a
produção por liberdade deveria receber o nome de arte, elaé um produto e é
preciso que este seja feito através da liberdade e  estar vinculado à razão; em um
segundo momento, a arte é algo distinto da ciência,não dependendo apenas de uma
capacidade teórica; por último, o filósofo aponta para a noção de quearte é diferente
do artesanato: o trabalho é fundamentalmente uma alienação e a arte não é isso; ela
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é liberdade e não alienação; todo trabalho aliena enão é livre. Neste sentido, Kant
afirma que o belo encontrado na arte não é determinado por conceitos, muito
embora ele seja dado no tempo e espaço, que são categorias da sensibilidade. O
belo não está conectado com o objeto. Ele está na nossa reflexão, na medida em
que nós o julgamos como símbolo do supra-sensível, ou, da coisa em si.
Julgar uma coisa é resultado de uma ação espontânea. É uma ação
inteligente, não estando sujeito às leis da natureza ou do entendimento. Julgar é
também produto da nossa subjetividade. É sinônimo de refletir. E esse juízo sobre o
belo é o único que pode ser feito de forma desinteressada e, justamente por isso,
livre. Dentre todas as espécies de satisfação,
(...) a do gosto em relação ao belo é, única e exclusivamente, uma
satisfação desinteressada e livre; pois nenhum interesse, nem o dos
sentidos, nem o da razão, obriga à aprovação. (...)Um objeto da
inclinação, e um objeto que é imposto ao nosso desejo por uma lei
da razão, não nos deixa nenhuma liberdade de fazer  para nós
mesmos, de algo, um objeto de prazer. Todo interesse pressupõe
necessidade, ou a produz; e, como fundamento-de-determinação da
aprovação, não deixa mais o juízo sobre o objeto ser livre. (KANT,
1974, p. 308).
Neste sentido, encontramos na filosofia kantiana a  ideia de que todo juízo é
reflexivo. Mas, há alguns que são puros – cujo quais não encontramos conceito – e
outros que são determinantes – onde encontramos conceitos.
Os juízos reflexivos puros são juízos estéticos, ou seja, são os juízos do Belo.
Compreende-se por Belo aquilo que é radicalmente indeterminado. Tem um
significado, porém não é objeto determinado. Ora, apossibilidade de representar o
indeterminado (o Belo) favorece a passagem da liberdade à natureza. A faculdade
do juízo, em sua autonomia, permite a passagem da liberdade à natureza em vista
da conformidade com as finalidades. O reconhecimento da irredutibilidade do mundo
natural e do mundo inteligível favorece a passagem  entre estes dois mundos,
abrindo a possibilidade de pensarmos esta passagem.O Belo permite interpretar os
efeitos da coisa em si. Kant, juntamente com Schiller, supõem que a arte tem um
papel na educação. Todavia, a resposta do segundo éconsideravelmente diferente
do primeiro. Schiller afirma que a consciência da liberdade e a vivência da sua
existência simultaneamente é a contemplação estética. Esta é a maneira como o
homem se descobre sujeito de si mesmo, ele se percebe como uma capacidade de
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representação de coisas, e, portanto, não é, ele próprio, uma coisa que pertence à
natureza e segue suas leis.
A contemplação (reflexão) é a primeira relação liberal do homem
como o mundo que o circula. (...) A necessidade natural, que o
dominara sem divisão de poder no estado da mera sensação, libera
o objeto na reflexão; não há trégua momentânea nos  sentidos, o
próprio tempo eternamente mutável repousa enquanto  os raios
dispersos da consciência convergem e uma imagem do  infinito, a
forma, se reflete no fundo perecível. (SCHILLER, 1990, p. 130)
Para Schiller, o homem é escravo da natureza quandoapenas a sente, e
torna-se legislador quando a pensa. Sendo assim, a  natureza passa a ser
relativizada diante do homem. O Belo e a beleza sãoobjetos, todavia, a
contemplação deste desperta no sujeito a consciência de si, ele se experimenta a si
mesma como uma receptividade ao mundo sensível e a  partir disso, como diz
Lebrun (2002, p. 503), “torno-me verdadeiramente universal”. O Belo é a forma viva,
ou seja, o supra-sensível no sensível. Na contemplação estética nós sentimos o
supra-sensível. Para Kant, esta justaposição dos dados sensíveis para o supra-sensível, esta ponte de acesso frágil, da liberdadee da natureza, não passa de uma
analogia. Mas para Schiller isto é fundamental. O fundamento da verdade, da ciência
e da moralidade, já se realiza na contemplação estética.
Kant acredita que apropriar-se de si mesmo significa pensar por si, essa é a
máxima de uma razão jamais passiva e é neste sentido que, para Kant, o
entendimento legisla a natureza. Deste modo, Kant nos diz que existe uma liberdade
prática, entendida como a liberdade moral e uma liberdade estética, onde o objeto
não é determinado por conceitos. A nossa apreciaçãodo objeto estético é livre de
conceitos, há uma independência à regra do entendimento. No juízo estético não há
uma medida de conhecimento científico, em outras palavras, não está a serviço do
conhecimento. Porém, a referência do juízo estéticoestá relacionada somente no
sujeito e sua vida subjetiva.
Uma vez que o juízo de gosto esteja fundamentado naidéia de Kant de um
senso comunitário, podemos compreender o papel desta faculdade na conciliação
entre liberdade e natureza como uma forma de levar o sujeito a uma experiência da
sua universalidade subjetiva. A contemplação do Belo suscita em mim a consciência
das minhas faculdades representativas. Somente na experiência estética do Belo eu
me torno consciente da minha subjetividade. Kant afirma que na base do
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conhecimento e da moralidade está a experiência estética como inteligência pura. O
sentimento do Belo é condição necessária para o exercício da ciência e da
moralidade. A ciência e a moralidade surgem de uma  interrupção da experiência
estética. Para Kant, o gosto é a sensificação de idéias morais, é a faculdade de
significar sensivelmente o supra-sensível. Será quecom esta ideia, Kant consegue
estabelecer uma ponte inteiramente subjetiva, com validade universal, sem anular o
abismo?
Como forma de aprofundar esta questão, percebe-se que em sua obra Crítica
do Juízo, Kant define o Belo como aquilo que meramente lhe  apraz. Ele é uma das
três diferentes proporções das representações ao sentimento de prazer e desprazer
(o agradável e o bom são as outras duas).
Assim, pode-se afirmar que o juízo de gosto só podeser um juízo estético, e,
portanto, não pode ser lógico, compreendendo ainda  que seu fundamento-de-determinação seja subjetivo. Para melhor explicar esta ideia, Kant nos diz em sua
terceira crítica, que “abarcar um edifício regular  e conforme a um fim com a
faculdade de conhecimento (...) é algo inteiramenteoutro do que ter consciência
dessa representação com a sensação de satisfação” (KANT, 1974 p. 303). Em
outras palavras, essa representação refere-se ao sujeito e, este, sente a si mesmo
sob a denominação de sentimento de prazer e desprazer.
Ao escrever isso, o filósofo alemão passa a afirmarque a satisfação que
determina o juízo-de-gosto é realizada sem nenhum  interesse. Todavia, cabe
ressaltar aqui a definição que o autor faz deste conceito:
Interesse é denominada a satisfação que vinculamos  com a
representação da existência de um objeto. Como tal,tem sempre, ao
mesmo tempo, referência à faculdade-de-desejar, seja como seu
fundamento-de-determinação ou, pelo menos, como
necessariamente em conexão com seu fundamento-de-determinação
(KANT, 1974, p. 304).
O que importa para Kant não é a existência da coisaBela, mas o julgamento
que fazemos disto. O que importa é se a representação do objeto no sujeito produz
alguma satisfação, ainda que o sujeito se ponha de  forma indiferente à questão da
existência de tal objeto. Como diz Kant, “vê-se facilmente que é aquilo que, a partir
dessa representação, faço em mim mesmo, não aquilo  em que eu dependo da
existência do objeto, que importa para dizer que ele é belo e para demonstrar que eu
tenho gosto” (KANT, 1974, p. 304).
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Para afirmar a idéia de que a contemplação estéticaé feita de forma
desinteressada, Kant passa a distinguir três espécies de interesse, ou ainda, três
diferentes proporções das representações ao sentimento de prazer e desprazer: o
agradável, o beloe o bom.
O  agradável, como diz o próprio autor, “é aquilo que apraz aossentidos na
sensação” (KANT, 1974, 304), compreendendo este termo sensação como toda
espécie de satisfação, uma vez que se algo lhe apraz, justamente por que lhe apraz
causa um sentimento de agradabilidade e amabilidade, torna-se regozijante,
deleitoso e assim por diante. Não está em jogo aquio como se chega a isto, se eles
são impressões dos sentidos, proposições da razão ou ainda formas refletidas da
intuição, pois isto “seria o agrado na sensação de  seu estado (...) [e] não se poderia
presumir nelas nenhuma outra apreciação das coisas  e de seu valor, senão a que
consiste no contentamento que elas prometem” (KANT,1974, 305). A sensação a
que Kant se refere é a que está ligada ao sentimento de prazer e desprazer e não à
sensação da representação de uma coisa. É uma sensação que pertence ao campo
do sentimento e não do entendimento, da lógica. Suarepresentação tem a ver com
o sujeito e não com o objeto.
Entendemos, porém, (...) pela palavra sensação, umarepresentação
objetiva dos sentidos; e, para não correr sempre o perigo de ser mal
interpretado, queremos denominar aquilo que tem de  permanecer,
todo o tempo, meramente subjetivo e absolutamente não pode
constituir nenhuma representação de um objeto, com  o nome, de
resto corriqueiro, de sentimento. (KANT, 1974, p. 305)
O exemplo que o autor se serve para explicar esta idéia é de que quando se
olha para verdes prados, a cor verde pertence à sensação objetiva, àquilo que os
sentidos captam e são consideradas como conhecimento. No entanto, a sensação
de agradabilidade ou desagrado, pertencem à sensação subjetiva, aos sentimentos,
à satisfação, que não tem nada a ver com a idéia dequalquer espécie de
conhecimento.
Mas como fica a relação deste  agradável  com a idéia do  interesse? Aquilo
que satisfaz aos homens, só os satisfaz porque atendem a seus  interessesou um
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juízo-de-gosto por um objeto que agrada é feito de  forma desinteressada? Será que
tal juízo não contém em si mesmo certa inclinação, ou certo interesse?
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Kant não vê problema nesta questão e afirma com certa naturalidade que o
juízo sobre um objeto agradável contém em si um interesse, e isto é claro para ele,
uma vez que o sujeito, por sensação, excita um desejo por objetos agradáveis e a
satisfação que este lhe dá pressupõe que ele existae que o afete.
Por isso, do agradável, não se diz meramente que ele  apraz, mas
que ele  contenta. Não é uma mera aprovação que eu lhe dedico,
mas por ele é engendrada uma inclinação; e, àquilo que é agradável
do modo mais vivo, a tal ponto não pertence nenhum  juízo sobre a
índole do objeto, que aqueles que sempre visam apenas à fruição
(pois esta é a palavra com que se designa a interioridade do
contentamento) de bom grado se abstêm de todo julgamento. (KANT,
1974, p. 305-306)
Diante disso, pode-se afirmar que um juízo-de-gostoque leve em conta o
agradávelexprime um interesse, pressupõe uma inclinação. Quando se trata, porém,
da relação com o segundo tipo de interesse mencionado por Kant, a saber, o bom,
ver-se-á que não é totalmente diferente, pois a satisfação com o  bomtambém é
vinculado com interesse. Mas quais são suas particularidades? Em que difere esta
relação do agradávele do bomcom o interesse? E ainda, como estes se relacionam
com o belo?
Inicialmente, cabe aqui demonstrar a definição de  bomutilizada pelo autor de
a  Crítica do Juízo: “Bom é aquilo que apraz por intermédio da razão,  pelo mero
conceito” (KANT, 1974, p. 306). Esta definição vai  ainda um pouco mais além, ele
distingue dois tipos de bom: o bom para algo, compreendido como algo útil ou ainda
que apraz como um meio; e o  bom em si, que apraz, segundo próprio autor, por si
mesmo. É importante notar que tanto um, quanto outro pressupõe o conceito de um
fim e, com efeito, exprimem um interesse qualquer, pois ambos se satisfazem com a
existência deste objeto ou desta ação que se denomina bom.
Kant percebe que muitas vezes, o agradável é visto  da mesma forma que o
bom, que os dois são a mesma coisa. Todavia, o que  se percebe é que isto não
passa de um mero equívoco das palavras. Ele utilizao exemplo, para ilustrar isto, de
que é possível afirmar que certo tipo de comida, umprato temperado com diversas
especiarias e outros ingredientes pode ser agradável e ao mesmo tempo, confessar
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Compreendendo este conceito de interesse como a satisfação que vinculamos com a representação
da existência do objeto.
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que isto não seja bom. Isto se deve ao fato de “o agradável, que, como tal,
representa o objeto meramente em referência ao sentido, tem antes de ser trazido,
pelo conceito de um fim, sob princípios da razão, para denominá-lo, como objeto da
vontade, bom” (KANT, 1974, p. 306). No agradável, oobjeto deve necessariamente
satisfazer sem mediações, ou seja, de forma imediata. Já no tocante ao bom, isto
pode variar: se o bom for bom para algo, ele precisa de mediações, mas se for bom
em si, não. Em outras palavras, “para achar algo bom, tenho sempre de saber que
coisa o objeto deve ser, isto é, ter um conceito domesmo” (KANT, 1974, p. 306) O
mesmo não ocorre com o  belo, pois para encontrar beleza em pinturas, paisagens
ou outras obras não precisam ter um conceito determinado, mas nem por isso estes
deixam de causar satisfação. “A satisfação com o belo tem de depender da reflexão
sobre um objeto, que conduz a algum conceito (sem se determinar qual)” (KANT,
1974, p. 306). Kant utiliza outro exemplo para esclarecer esta idéia: a saúde é
imediatamente agradável para aquele que a possui. Mas nem sempre é possível
dizer que ela é boa, pois se faz necessário, para tal, orientá-la pela razão a fins, até
que se chegue ao ponto de que o corpo possa realizar todas as ações possíveis a
ele em boas condições.
Diante disso, Kant passa a concluir que, dentre todas as diferenças entre o
agradável e o bom uma coisa eles tem em comum, que é o fato de estarem sempre
vinculados a um interesse por seu objeto, seja comomeio para algum fim, como é o
caso do agradável e o mediatamente bom, seja como para o imediatamente bom,
que traz consigo um interesse supremo. “Pois o bom  é o objeto da vontade (isto é,
de uma faculdade-de-desejar determinada pela razão). Mas querer algo e ter uma
satisfação com a existência do mesmo, isto é, ter um  interesse –  uma satisfação
vinculada com a representação do objeto – por ela, é idêntico” (KANT, 1974, p. 307).
O juízo de gosto, neste sentido, está vinculado apenas ao sentimento de
prazer e desprazer, sendo considerado por Kant, justamente por isso, um juízo
meramente contemplativo, que não é orientado para conceitos e nem mesmo
destinado a eles, sendo, o agradável, o belo e o bom, maneiras diferentes de
representar este sentimento de prazer e desprazer.  O autor define então que o
“agradávelchama alguém àquilo que o  contenta;  belo, àquilo que meramente lhe
apraz;  bom, àquilo que é  apreciado,  estimado, isto é, em que é posto por ele um
valor objetivo” (KANT, 1974, p. 308). Cada qual destas três formas de
representações do sentimento de prazer e desprazer  são direcionadas, ora para os
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seres racionais e irracionais – é o caso do  agradável– ou somente para os seres
animais racionais, os homens – como no caso do  belo– ou ainda para os seres
racionais em geral, podendo ser animal ou não-animal – que é o caso do bom.
Estas três espécies de satisfações são referenciadas, respectivamente, àquilo
que Kant chama de  inclinação,  favore  respeito.  Contudo, a única, dentre estes três
tipos que é feita sem nenhuma forma de interesse é  a do gosto em relação ao belo.
Ela “é, única e exclusivamente, uma satisfação desinteressada e  livre, pois nenhum
interesse, nem o dos sentidos, nem o da razão, obriga à aprovação” (KANT, 1974, p.
308). A única satisfação livre, que prescinde de todo e qualquer interesse, é a do
favor. Assim, o gosto só é livre na contemplação dobelo, pois em se tratando de um
objeto da inclinação, não podemos ser livres, uma vez que ele se impõe ao desejo
por uma lei da razão, que, com efeito, impede toda  e qualquer liberdade de fazer
para si mesmo algo um objeto de prazer. Por isso, Kant afirma que “todo interesse
pressupõe necessidade, ou a produz; e, como fundamento-de-determinação da
aprovação, não deixa mais o juízo sobre o objeto ser livre (KANT, 1974, p. 308).
Para melhor esclarecer a idéia do interesse na inclinação, ou seja, no tocante ao
agradável, ele se utiliza do exemplo de que o melhor cozinheiro é a fome e que as
pessoas precisam primeiramente saciar suas necessidades para poder julgar se sua
escolha em relação a um prato de comida o torna um  sujeito de gosto, ou não. A
satisfação de agradabilidade pode não dizer nada emrelação ao gosto de um sujeito
que está faminto. Da mesma forma, em relação ao respeito (ao bom), Kant afirma
poder existir “costumes (condutas) sem virtude, cortesia sem benevolência, decência
sem honradez e assim por diante. Pois onde fala a lei moral não há, objetivamente,
mais nenhuma livre escolha quanto àquilo que é parafazer” (KANT, 1974, p. 308).
Assim, nota-se que o interessenão deixa o juízo sobre um objeto ser um juízo
livre, sendo que a única espécie de satisfação capaz de prescindir de todo e
qualquer interesse é a que se refere ao belo e nadamelhor que as palavras do
próprio Kant, inferida do primeiro momento da  Analítica do Belopara melhor
esclarecer esta ideia: “Gostoé a faculdade-de-julgamento de um objeto ou de um
modo-de-representação, por uma satisfação, ou insatisfação,  sem nenhum
interesse. O objeto de uma tal satisfação chama-se  belo” (KANT, 1974, p. 309). O
gosto é a faculdade de significar sensivelmente o supra-sensível e a obra de arte é o
produto humano capaz de despertar em nós o belo, sendo visto como um símbolo
do supra-sensível. Será que esta é uma solução paraa possível conciliação entre
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liberdade e natureza, para o abismo que Kant tenta  fechar? Paul Guyer partilha
desta ideia e escreve que Kant tentou
(...) argumentar que é através destes ideais que nós podemos unir os
reinos da natureza e da liberdade, porque a experiência estética nos
oferece uma imagem palpável da nossa liberdade moral, e uma
concepção científica do mundo como um sistema de seres
interdependentes só faz sentido como uma imagem do  mundo como
a esfera dos nossos próprios esforços morais (GUYER, 2010).
Será que com esta ideia, o abismo passa a ser anulado? Qual é o papel do
sujeito dentro da contemplação estética, para validar esta ponte inteiramente
subjetiva? O que Kant tem em vista alcançar ou assegurar quando, de um lado,
afirma a radical distinção entre liberdade e natureza, e quando, de outro, procura
conduzi-la a uma espécie de conciliação mediante o  juízo? São questões como
estas que este projeto de pesquisa tem como objetivo investigar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Abril Cultural. 1974 (coleção os pensadores);
______.  Crítica da Razão Pura.  Tradução Valério Rohden e Udo Baldur
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______.  Crítica da Razão Prática.  Edição Bilíngue. Trad. Valério Rohden. São
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14
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